Eu e uma amiga (Márcia Fialho) escrevemos um livro-reportagem para a conclusão do curso de jornalismo em 2006.
O livro, que foi avaliado com nota 10 pela banca examinadora, trata do programa Escola da Família, iniciado na gestão Geraldo Alckmin, que abre as escolas estaduais para a comunidade nos finais de semana. Os universitários que trabalham nessas escolas, recebem bolsa-integral em cursos de graduação em faculdades conveniadas.
Através de entrevistas (com a coordenadora do programa na Secretaria de Educação, universitários, freqüentadores e etc) e pesquisas nas ruas, buscamos mostrar os dois lados do programa.
Fizemos uma grande pesquisa de campo em quatro bairros de regiões distintas, com poderes aquisitivos diferentes. Aplicamos 100 questionários nas ruas e 33 com educadores, esses últimos para comprovar o interesse do público alvo numa publicação com esse conteúdo.
Abaixo segue a introdução do livro e o primeiro capítulo, que basicamente explica o funcionamento do programa.
O livro contém:
Prefácio (escrito pelo Prof. Leo Rícino – Vice-Diretor da Faculdade de Letras da Unisa – Universidade de Santo Amaro), agradecimentos, introdução e nove capítulos. Há também 10 páginas de fotos.
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A Educação no Brasil não é um dos melhores exemplos em questão de qualidade. No ranking de 2005 da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), quanto ao Índice de Desenvolvimento da Educação, o Brasil ocupa o 71.º lugar, numa lista de 121 países.
Nesse cenário, as ações sociais nessa área tentam amenizar os prejuízos que o país e a população sofrem, já que a educação é a base para o desenvolvimento de uma sociedade e para a diminuição da desigualdade social, tão acentuada no Brasil.
O Programa Escola da Família, do qual tratamos nesse livro, é uma dessas iniciativas. Nós (uma ex-educadora universitária do programa e outra ainda atuante) buscamos mostrar, jornalisticamente, todos os lados dessa grande “Família”.
Nossa experiência com as alegrias que o programa proporciona para uma pessoa que recebe a ajuda e para aquela que vê seu esforço convertido num sorriso e num agradecimento se funde ao conhecimento que temos das dificuldades enfrentadas pelas equipes. A perspectiva de ajudar a sociedade, tão forte para quem escolhe o ofício do jornalismo, que nos motivou tanto a entrar no programa se mistura com a jornada cansativa e a necessidade de concluir os estudos.
Procuramos com este livro, mostrar os lados educacional e social, mas também o humano, de pessoas que almejam uma melhoria em suas próprias vidas e também na sociedade.
1- Família na escola: Busca de um sonho em comum
Traços de satisfação e alegria, pele branca, cabelos pretos e estatura mediana. Com roupas simples, representando o visual básico, mas com um tom despojado no boné vermelho e óculos grandes, esse garoto sempre sorridente em todas as fotos, que não deve passar dos seus 12 anos, ganhou grande espaço sendo mascote do Programa Escola da Família.
Escolhido através de um concurso de desenho entre universitários atuantes, o mascote surgiu para representar o público alvo desse programa social da gestão de Geraldo Alckmin, PSDB, no governo do estado de São Paulo. Há pouco mais de três anos em vigência, o espaço escolar, a partir do dia 23 de agosto de 2003, passou, oficialmente, a ser mais uma opção de lazer à comunidade do sistema público de ensino, aos finais de semana, das 9h às 17h, com intuito de interagir e integrar pais, filhos e educadores.
Criado pela Secretaria Estadual de Educação em parceria com a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), o objetivo inicial era diminuir a violência dentro e aos redores das unidades escolares, por isso, em seu primeiro ano o lema foi “Escola da Família, Espaço da Paz”.
Tirar um projeto do papel, colocar a teoria, que geralmente parece ser prática e quase perfeita, para funcionar é algo que exige muita organização, sistema operacional eficiente, regras, investimentos, entre outros aspectos. Os mentores responsáveis subjugaram esse papel importante e adequado aos profissionais da área da educação. Assim, as atividades sócio-culturais, esportivas, de qualificação para o trabalho e ações preventivas no setor da saúde, que são núcleos base para o funcionamento do programa, se tornaram metas entre os contratados.
O formato é tradicional e hierárquico. Em cada escola há um Gestor, que pode ser o diretor ou o vice-diretor ou ainda o professor coordenador da escola. Ele recebe a função de participar com a comunidade, cuidando do patrimônio escolar e também fazendo a integração às aulas de segunda à sexta-feira, assim transformando o programa Escola da Família em um projeto pedagógico da escola. Também há um Educador Profissional, que é um professor, previamente selecionado por essa sua capacidade de mobilização social e também pela sua capacidade em interagir com os jovens, de mediar conflitos e de organizar atividades. Por fim, cada uma dessas escolas conta com um grupo de Educadores Universitários, os quais participam da Bolsa-Universidade, e com voluntários que o programa consegue despertar na comunidade. Assim, eles fazem as engrenagens dessa imensa máquina social funcionar.
Segundo as regras para concorrer à bolsa-universidade, para se tornar um dos educadores universitários é necessário ter concluído o Ensino Médio na rede estadual paulista, estar regularmente matriculado em curso de graduação de Instituição Privada de Ensino Superior (conveniada com o Programa), não estar recebendo outro benefício para custeio da mensalidade do curso superior, ter interesse e disponibilidade para participar de atividades do Programa, totalizando 16 horas para o desenvolvimento das atividades nos fins de semana. A Secretaria de Educação paga 50% da mensalidade, até o limite de R$ 267,00, enquanto a universidade/faculdade arca com o restante.
Com aproximadamente 5800 escolas distribuídas no estado paulista, 5300 aderiram ao programa, que abrigaram nos primeiros meses 9 mil bolsistas. Já em 2004, o número passou para 18 mil universitários, no ano seguinte chegou aos 25 mil e até a última divulgação, passada pelos seus assessores, era de 35 mil.1
No inicio, a meta era ambiciosa e otimista, pois o ideal seria completar três anos com 50 mil bolsas de estudo, o que não aconteceu, mas segundo Cristina Cordeiro, coordenadora do programa, “há um potencial de ir até 50 mil, mas na parceria com os municípios, na adesão de novos municípios. Porque o Escola da Família foi estendido agora à rede municipal”.
Fatos e números que fazem Geraldo Alckmin concluir em uma coluna publicada na Folha de São Paulo, um dia depois da inauguração oficial do programa, que “a concessão das bolsas aos universitários pode ser saudada como se São Paulo tivesse criado, na prática, sua quarta universidade pública: USP, Unesp e Unicamp, que juntas tem 77 mil alunos”.
Para manter, ou ao menos tentar, uma sincronia administrativa padrão nas escolas dos 645 municípios participantes do estado de São Paulo, foram criadas 90 Diretorias de Ensino (D.E), que formam a coordenação regional. Em cada uma das D.E.s existe um dirigente, como representante da Secretaria de Educação, o grande defensor dos princípios do Escola da Família. Para defender a abertura das escolas, o supervisor de ensino é o profissional indicado e responsável, aquele que constrói as palafitas da educação, juntamente com um Assistente Técnico Pedagógico (ATP), um professor contratado exclusivamente para gerenciar as questões do programa, para promover capacitações, entre outros.
Entre tantos cargos nomeados, totalizam-se 5.188 educadores profissionais e 41.169 educadores voluntários, 5.541 consultores da Unesco (coordenadores de área e Educadores Profissionais), 127 milhões de participações (127.655.490) com uma média mensal de 560 mil atividades e quase 7,5 milhões de participantes por mês.2
A postos e com mais de 6,5 milhões de atividades (6.571.085) baseadas nos quatro eixos norteadores do programa: esporte, cultura, saúde e qualificação para o trabalho, os universitários montam suas oficinas conforme suas maiores habilidades e deficiências da comunidade, que deve ser identificada e divulgadas pelos mesmos.
O Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb) aponta percentuais de contribuição na queda do índice de evasão escolar: segundo seu último o levantamento, o Estado de São Paulo tem o menor número de evasão escolar do país. No Ciclo I (de 1ª a 4ª séries) a evasão está em 1,1%, no Ciclo II (de 5ª a 8ª séries) em 3,0% e no Ensino Médio (1º ao 3º ano) em 5,0%.3
“Já que o futuro começa hoje, o professor também quer e precisa ter qualidade de vida. Que se traduz em mais segurança nas escolas, com o programa de segurança escolar. E que se traduz na grande revolução educacional desta gestão, que é o Programa Escola da Família”, diz Gabriel Chalita, ex-secretário da educação e considerado padrinho e idealizador do programa, em uma carta publicada dia 15 de outubro de 2004, dia dos professores, na seção Painel do Leitor, página A3, da Folha de São Paulo. Ele levanta a relevância e uma possível interferência no trabalho do corpo docente, o que se confirma com uma pesquisa que fizemos com 33 profissionais da educação pública do estado, de diversas regiões, pois 94% consideram o programa Escola da Família importante para o atual cenário do ensino público estadual de São Paulo.
Os programas e projetos desenvolvidos pela Secretaria de Estado da Educação têm, entre seus objetivos, o intuito de promover a aprendizagem da população que freqüenta a escola pública. Nesse contexto, o Programa Escola da Juventude, foi instalado desde 2005, aos finais de semana, em algumas escolas na rede atuante do Escola da Família.
Assim que foram feitos os primeiros alarmes da abertura das inscrições, através de cartazes, comercias em grandes rádios e canais de televisão, ao abrir os portões no primeiro sábado, pela manhã, educadores já enfrentavam um breve grupo de pessoas com dúvidas e interesses parecidos. Mas, as respostas ainda não haviam sido passadas a nenhum responsável, assim o grupo de desinformados tornou-se maior.
Aos poucos, as informações chegavam fragmentadas e assim foram sendo repassadas à comunidade. Os dias se passavam e o término das inscrições ficava mais próximo, e a pressão dos interessados ainda maior. Enfim, as regras foram estabelecidas para esclarecimento de todas as dúvidas.
Segundo as palavras de Gabriel Chalita, em apresentação da Política Educacional adotada por sua gestão, o Escola da Juventude contribuiria “para tornar mais presente a Escola-cidadã, democrática e plural, estabelecendo as marcas do acolhimento, abrindo as portas, dando ao jovem papel de protagonista, de alguém que, com orgulho, convidará e receberá a própria família e outras famílias dentro da escola”.
O intuito era oferecer aos jovens e adultos, de 18 a 29 anos, que estão fora da escola uma nova alternativa de Ensino Médio, flexível o bastante para atrair aqueles que necessitam retomar os estudos e elevar sua escolaridade e que não vêem nas outras modalidades existentes o atendimento de suas expectativas e possibilidades.
As aulas acontecem aos sábados e domingos e obedecem à seqüência curricular proposta pelo projeto, que é oferecida por meio de módulos semestrais relativos a cada uma das áreas de conhecimento: Códigos e Linguagens, Ciências da Natureza e da Matemática, Ciências Humanas e Sociais.
Segundo a assessoria de comunicação do Escola da Juventude, a composição dos módulos prevê uma flexibilidade ao aluno para eliminação de cada uma das disciplinas. Assim, em cada semestre serão oferecidas disciplinas obrigatórias – que deverão ser cursadas dentro daquele período – e optativas, que poderão ser eliminadas antecipadamente ou cursadas posteriormente, no último semestre.
Cada sala de aula conta com um Orientador de Estudos (OE), universitário e estudante de licenciatura plena em História, Geografia, Matemática, Química, Física, Biologia, Português, Literatura ou Inglês em fase de conclusão de curso, que deve ter acesso à Internet banda larga, possuir aparelho de DVD e aparelho celular.
Nas aulas realizadas na sala de informática, os alunos são orientados por um educador universitário do quadro da equipe do Escola da Família, que fica das 9h às 17h disponível exclusivamente para essa atividade, o que a assessoria do programa chama de “monitores especializados”.
O investimento total em três anos de programa Escola da Família chegou a R$ 176.508.000,00, em uma ideologia continuada e ampliada do programa Parceiros do Futuro, da gestão Mário Covas, em 1999, o qual levava até cerca de 400 escolas públicas, o clima descontraído da convivência e lazer aos finais de semana.